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Fogo Repentino na Indústria de Óleo e Gás: Você Está Realmente Protegido?

Por Maria Chies

Introdução

O fogo repentino é um dos principais perigos térmicos associados às atividades de exploração, produção, processamento, armazenamento e transferência de petróleo, gás e outros produtos inflamáveis. A presença de hidrocarbonetos, vapores inflamáveis e fontes potenciais de ignição pode criar cenários nos quais uma liberação acidental resulta em uma exposição térmica intensa, porém de curta duração.

Embora o fogo repentino normalmente se extinga rapidamente, suas consequências podem ser graves. Além da exposição direta à chama, existe o risco de um uniforme sem a proteção térmica entrar em combustão e continuar queimando após a extinção da chama.

O programa eficaz começa pela identificação dos perigos, passa pela definição dos requisitos de desempenho e termina com a seleção, uso, manutenção e substituição do uniforme comum pela Vestimenta de Proteção Térmica.

1. O que é o fogo repentino?

O fogo repentino ocorre quando uma mistura inflamável de combustível e ar encontra uma fonte de ignição. Em operações de óleo e gás, o combustível pode estar presente como gás, vapor ou líquido inflamável. Uma característica importante é sua curta duração: o fogo se propaga rapidamente pelo combustível disponível e tende a se extinguir quando essa fonte é consumida ou deixa de estar presente.

Isso diferencia o fogo repentino de um incêndio alimentado continuamente por uma fonte de combustível. Os dois cenários podem produzir exposições térmicas graves, mas não são necessariamente equivalentes e devem ser considerados separadamente na análise de risco e na seleção dos equipamentos de proteção.

IMPORTANTE: O fato de a exposição durar apenas alguns segundos não significa que o risco seja pequeno. A intensidade térmica pode ser suficiente para provocar queimaduras e, quando o uniforme convencional entra em combustão, a exposição sobre o corpo pode continuar mesmo depois de a chama externa desaparecer.

2. Uniforme sem proteção térmica agrava muito a lesão

Quando um uniforme convencional é exposto a uma chama, pode ocorrer sua degradação térmica e formação de gases combustíveis. Esses gases podem entrar em combustão e manter o uniforme queimando.

Esse comportamento é especialmente crítico em um fogo repentino. A exposição externa pode ser extremamente rápida, um uniforme comum prolonga significativamente a exposição térmica da pele.

É justamente nesse ponto que uma vestimenta de proteção térmica exerce sua função: elimina a possibilidade de sustentar a combustão e proporciona uma barreira térmica durante a exposição.

A vestimenta de proteção térmica diminui drasticamente o risco de queimaduras. Sua finalidade é reduzir a probabilidade de lesão grave e aumentar a proteção ao trabalhador durante o evento.

3. A proteção começa pela análise de risco

A pergunta inicial de qualquer programa de vestimenta para óleo e gás deveria ser:

Quais são os perigos aos quais o trabalhador está realmente exposto?

A análise deve considerar o processo, os produtos envolvidos, as possíveis fontes de ignição, os cenários de liberação e as condições reais de trabalho.

Além do fogo repentino, podem existir riscos simultâneos, como respingos químicos, líquidos quentes, vapores, calor radiante, arco elétrico, riscos mecânicos e necessidades específicas de visibilidade. O tecido especificado destaca justamente a necessidade de considerar esses riscos adicionais na definição do programa de vestimenta.

A NFPA 2113, maior referência internacional no tema fogo repentino, abrange especificamente os detalhes relacionados a análise de riscos relacionada a esse perigo na seção 4.2, e avança para a correta seleção das vestimentas de proteção na seção 4.3.

4. Nem Todo Risco Térmico é Igual: Fogo Repentino x Arco

Um ponto que merece atenção é a frequente associação entre a proteção contra fogo repentino e arco elétrico, como se ambos representassem o mesmo perigo térmico. Embora existam vestimentas desenvolvidas e certificadas para oferecer proteção contra os dois riscos, os fenômenos são distintos, apresentam diferentes mecanismos de transferência de calor e exigem métodos específicos para avaliação do desempenho da vestimenta.

No risco de arco elétrico, parâmetros como ATPV e EBT, são utilizados para estabelecer o arc rating do material ou sistema de vestimenta e são expressos em cal/cm². Esses valores estão relacionados exclusivamente à exposição térmica decorrente de um arco elétrico somente.

Para fogo repentino, a avaliação deve considerar métodos de ensaio e critérios próprios, relacionados à exposição à chama e à transferência de calor, incluindo, quando aplicável, ensaios instrumentados em manequim que permitem avaliar a previsão de queimaduras corporais. Portanto, um ATPV elevado não significa, por si só, maior proteção contra fogo repentino.

IMPORTANTE: Certificação na Norma NFPA 2112 (ou ABNT NBR 16623) não atende requisitos de certificação de arco elétrico (ASTM F1506 ou IEC 61482-2), e vice-versa, não caia nessa cilada!

5. A proteção deve ser avaliada como um sistema

Uma vestimenta de proteção térmica é composta não apenas pelo tecido, mas também por linhas de costura, botões, zíperes, etiquetas, faixas, sistemas de fechamento e outros componentes. Durante uma exposição térmica, todos esses elementos fazem parte do sistema de proteção e, portanto, o comportamento da vestimenta como um conjunto deve ser considerado.

Dentro desse sistema, entretanto, o tecido é o elemento fundamental da proteção térmica e, em diferentes normas e requisitos técnicos, é tratado como um componente crítico. É ele que representa a principal barreira entre a fonte de calor e o corpo do trabalhador e suas características têm impacto direto no desempenho térmico da vestimenta.

Por isso, não basta verificar se a Vestimenta de Proteção Térmica possui a certificação aplicável. É importante confirmar se sua construção e seus componentes correspondem à configuração efetivamente avaliada e, principalmente, conhecer a tecnologia têxtil utilizada e as evidências que sustentam seu desempenho.

Nem todos os tecidos de proteção térmica apresentam o mesmo comportamento. Diferentes fibras, construções, gramaturas e tecnologias podem resultar em níveis distintos de proteção, conforto, durabilidade e manutenção das propriedades ao longo da vida útil. A seleção, portanto, deve considerar não apenas um resultado ou certificado, mas também o histórico de desempenho da tecnologia, sustentado por ensaios, avaliações e evidências consistentes.

Esse aspecto é especialmente importante porque um resultado de ensaio representa o desempenho da amostra nas condições específicas em que foi avaliada. Um histórico consistente de resultados fornece uma base técnica mais robusta para compreender a repetibilidade e a confiabilidade do desempenho esperado daquela tecnologia têxtil.

Por fim, os critérios utilizados para a seleção da Vestimenta de Proteção Térmica devem ser tecnicamente fundamentados e documentados, podendo integrar ou serem referenciados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), em alinhamento com o processo de gerenciamento de riscos ocupacionais estabelecido pela NR-1.

6. O que deve ser verificado antes da seleção?

De acordo com a seção 4.3.1 da NFPA 2113, um programa tecnicamente consistente deve considerar pelo menos oito elementos anteriormente a seleção das vestimentas de proteção térmica:

1. Determinação do tipo de perigo presente no local de trabalho e da magnitude potencial, intensidade térmica e duração do perigo.

2. Determinação dos efeitos adversos da exposição sem proteção aos perigos identificados.

3. Determinação de outras opções de controle (por exemplo, medidas de engenharia ou administrativas) em substituição às vestimentas de proteção térmica.

4. Determinação das características de desempenho da vestimenta de proteção térmica.

5. Determinação da necessidade de descontaminação da vestimenta, quando aplicável.

6. Determinação das restrições ergonômicas relacionadas ao trabalho a ser realizado durante o uso da vestimenta.

7. Análise dos riscos e custo-benefício de todas as opções.

8. Implementação das opções selecionadas.

IMPORTANTE: No Brasil a NR-6 determina que a seleção do EPI considere os perigos identificados, os riscos avaliados, a eficácia necessária, os requisitos legais e normativos, o conforto e a compatibilidade com outros equipamentos utilizados simultaneamente.

O CA é, portanto, uma etapa essencial da seleção, mas não substitui a análise de risco: Uma vestimenta certificada não é automaticamente adequada para qualquer atividade!

8. Certificação não substitui o programa de proteção

A certificação demonstra que o produto atende aos requisitos correspondentes ao processo de avaliação. Ela não significa que a vestimenta possa ser utilizada indiscriminadamente em qualquer cenário. O programa deve seguir uma sequência:

  1. Identificação
  2. Avaliação de Risco
  3. Seleção da Proteção
  4. Treinamento
  5. Uso
  6. Inspeção
  7. Manutenção
  8. Reavaliação

Essa lógica é especialmente importante na indústria de óleo e gás, onde processos, produtos e atividades podem mudar ao longo do tempo. Três perguntas são essenciais para a criação ou reavaliação de um programa:

  • quais são os riscos encontrados?
  • qual tecido foi selecionado? e
  • a vestimenta atende aos requisitos normativos aplicáveis?

9. Cuidado, manutenção e conforto também fazem parte da proteção

O desempenho de uma vestimenta não depende apenas do resultado obtido em laboratório. Seu estado durante o uso também é determinante.

Óleos, hidrocarbonetos e outros contaminantes inflamáveis podem comprometer o comportamento da vestimenta de proteção. Da mesma forma, rasgos, abrasão, costuras danificadas, alterações não autorizadas ou componentes deteriorados podem reduzir sua capacidade de proteção.

Por isso, o programa deve estabelecer critérios para higienização, inspeção, armazenamento, reparo, substituição e descarte. No Brasil, a NR-6 no capítulo 6.5 estabelece responsabilidades da organização e no 6.6 as responsabilidades do trabalhador, relacionadas ao fornecimento, uso, conservação, higienização e substituição dos EPI.

A NFPA 2113 em sua seção 4.3.1 vai além dessa abordagem internacionalmente ao tratar da seleção, cuidado, uso e manutenção de vestimentas de proteção térmica para o fogo repentino.

Conclusão

O fogo repentino pode durar poucos segundos, mas suas consequências podem ser permanentes. Por isso, a proteção começa pela correta identificação e avaliação do risco.

A partir dessa análise, devem ser definidos os requisitos de desempenho, selecionada a Vestimenta de Proteção Térmica adequada e estabelecidos critérios para seu uso, cuidado, manutenção e substituição, considerando as NRs e normas técnicas aplicáveis.

Mais do que atender a uma certificação, proteger significa conhecer o risco, compreender a tecnologia e selecionar a proteção com base em evidências.

Porque, diante de um fogo repentino, são poucos segundos e cada detalhe da proteção importa.

Referências bibliográficas

[1] BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 6 (NR-6): Equipamento de Proteção Individual — EPI. Brasília, DF: MTE. Texto vigente.

[2] NATIONAL FIRE PROTECTION ASSOCIATION. NFPA 2113: Standard on Selection, Care, Use, and Maintenance of Flame-Resistant Garments for Protection of Industrial Personnel Against Short-Duration Thermal Exposures from Fire. 2025 ed. Quincy, MA: NFPA, 2025.

[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 16623:2021: Vestimentas de proteção — Proteção contra calor e chama provenientes de fogo repentino. Rio de Janeiro: ABNT, 2021.

[4] NATIONAL FIRE PROTECTION ASSOCIATION. NFPA 2112: Standard on Flame-Resistant Garments for Protection of Industrial Personnel Against Short-Duration Thermal Exposures from Fire. 2023 ed. Quincy, MA: NFPA, 2023.

[5] BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1): DISPOSIÇÕES GERAIS E GERENCIAMENTO DE RISCOS OCUPACIONAIS. Brasília, DF: MTE. Texto vigente.

[6] WESTEX®, a Milliken Brand. 3 importantes preguntas para considerar en la creación de un programa de prenda ignífuga para la industria de petróleo. [S.l.]: Westex®, 2018.

[7] WESTEX®, a Milliken Brand. 8 informações importantes que todo trabalhador de óleo e gás deveria saber sobre o fogo repentino. 23 maio 2018.